Para Matheus
Na época eu precisei ir. Não foi sua culpa. Não foi só por
você. Você foi um impulso maravilhoso. Eu queria e acho que sempre foi por mim.
Tudo começou com alguns sinais, com uma metáfora. O amor nasce de metáforas às
vezes, muitas vezes, acho. E eu fui. Mas em vez de fazer tudo por mim eu fiz
tudo por você. Achava que eu só tinha feito tudo e pronto e por isso me culpei por
não ter te perguntado. Mas um dia eu lembrei que eu te perguntei. É claro que eu
perguntei. Antes eu esperava você e agora eu nem lembro de ti. Esqueço, não
ligo, não noto, já não te percebo. Se fosse morar comigo agora eu levaria
semanas para notar.
Você me manda coisas. Fotos, palavras. Eu mal leio, não me
interesso mais. Acontece que eu não gosto mais de você como aconteceu de você
não gostar mais de mim. Acontece. O seu coração ficou frio naquela época, foi o fim de
ano mais gelado que eu já vivi. Tudo era frio, eu não conseguia sair de casa
para andar no parque sem um casaco. Ventava entre as árvores e no heliponto
onde eu sempre amei me deitar para ver o céu. Amava como as nuvens passavam
sobe as árvores. Eu sentia que o universo se movia e que eu fazia parte dele.
Amava isso.
Eu cresci e você não. Você ficou pra trás. Acho que todos
sempre ficam pra trás quando estão do meu lado. Alguns só tem paciência e se
sentam em vez de andar, pois sabem que eu volto para conversar às vezes. Eu percebi que agora quando eu me despeço não olho para trás.
Você é triste e eu não sou. Não consigo. Quando fico triste
é por pouco tempo e é uma tristeza calma, boa, silenciosa que é feliz no fundo,
que sabe que a vida é muito grande e muito boa. Você nunca soube disso, nunca
viu isso, você nem mesmo tentou, Matheus.
Não digo isso porque acho que todo mundo consegue algo se
esforçar, pois isso não é verdade. Tentar não é o suficiente às vezes e há muitas coisas que não se deve tentar. Digo isso porque te conheço melhor do que qualquer pessoa.
Eu te conheço melhor do que sua mãe te conhece. Sei tudo que você queria e você
nunca quis mesmo ficar. Como um passarinho que vem beber água num daqueles
potinhos com água e açúcar. Às vezes eu queria estar num desses potinhos e
talvez você tivesse mudado. Que tolice, hoje eu sei que não se muda as pessoas
com água e açúcar.
Eu tinha medo de você ir embora. Medo de te perder e não ter no que segurar. Coloquei todos os ovos em
ti e se você sumisse eu ficaria a deriva. Eu esqueci naquele ano o que era
ser eu, só existia com você. Eu me perdi no meu caminho e ninguém reparou antes
de eu ficar perdido. Eu não vi que não navegávamos mais no mar, não vi que agora eu
estava sozinho no barco e cercado por geleiras.
Foram dias estranhos aqueles logo depois que você foi embora.
Eu não conseguia dormir sozinho porque não parava de chorar. Não achava calor
ou vontade, só frio nos lençóis. Os gatos observavam impotentes enquanto
esperavam eu voltar de aonde quer que eu estivesse, dessa vez sem você. Quando eu
era pequeno eu separava o tempo por cores. Lembro que havia épocas azuis,
vermelhas, verdes, amarelas, mas esses dias foram brancos e gelados como neve. Eu emagreci e fiquei quebradiço como gelo.
Eu não sentia coisa alguma, nem o gosto da cerveja ou do amor
dos outros. Caminhava pelas ruas de madrugada, abraçava as roupas com
seu cheiro. Não as lavava com medo de te perder de novo.
Os meses passaram e o gelo derreteu. Comecei a sorrir de
novo, a rir e a chorar por voltar a rir. Haviam flores nas árvores. A alegria pode ser assustadora e não é
pra gente fraca. Lembro que era horário de verão, que eu tanto amo porque posso
ver o Sol se pôr ao chegar em casa, e eu sentava com os gatos comendo um pastel
enquanto mirava o céu. Eu lembrei quem eu realmente era, lembrei o que sou, lembrei
que sou filho de minha mãe e que eu não caio fácil. Comecei a sair sozinho mais
e mais vezes, voltei a sair com outros homens e foi bom, Matheus, e eu espero
que você faça o mesmo.
Quando eu me mudei me livrei de quase tudo que restava que
foi seu. Suas roupas, fotos, seu cheiro. Eu pediria desculpas, mas passamos disso. Eu pedia muitas desculpas a
você, você sempre me disse isso, e hoje não peço desculpas a ninguém. Eu aprendo. Não me arrasto
e não temo. O que eu joguei fora pertencia ao passado e a mais ninguém. E não foi só sua caixa que foi embora, caso
queira saber.
Um dia ao limpar o quarto dos livros eu achei um piolho de
cobra morto, enrolado, pequeno e delicado. Sempre gostei de piolhos de cobra e
tive medo de que fosse um mau agouro. Deveria tê-lo enterrado em um dos meus
vasos. Sabe que eu atraio joaninhas e que
não mato insetos se puder evitar. Costumo prendê-los em pote e solta-los na
rua.
A casa é grande e silenciosa. Cada
som ecoa nas paredes. Estou onde quero e devo estar. Há muitas pessoas visitando, cheiro de bolo, risada,
palavras e música. Nada ruim passa da entrada, eu não permito mais. Cresci
muito e sei que não há justiça no universo, eu sei que a vida é uma possibilidade da qual somos feitos, mas na minha casa não entra nada que
não seja bom.
Ainda lembro de tudo e se você esqueceu permita que eu lhe refresque a memória. Eu me lembro das estrelas cadentes e me lembro do céu naqueles dias. A primeira foi como um relâmpago riscando o céu, um clarão, e a segunda uma explosão de azul e fogo. Lembro de dor e saudade, de risada e incerteza. Lembro de ir com tudo e nada e então esperar pela chuva. Eu me lembro de escrever nomes na areia enquanto sentava no balanço e muitos meses de espera. Meses sozinhos e frios. Hoje sei que amor e frio não devem ficar juntos.
Quero que você me visite um dia. Você provavelmente não vai
ler isso, mas eu quero te ver. Não por muito tempo, só um pouco, pois não quero lembrar. Aceito que você se hospede sob meu
teto, mas é só. Eu sou grande e forte agora, catei pedaços de mim que achei, não todos, em alguns eu não toquei, mas eu sou inteiro de novo e nunca deixarei de ser. Não vou mais viver com você e provavelmente não viverei com mais ninguém.
Não te desejo felicidade, isso você há de achar se olhar a
sua volta e ver a beleza, eu só te desejo paz, a única coisa que você nunca teve, nem quando eu
era tudo em seu mundo.
Bastian.

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