Para Fê
Eu ia escrever para a Leticia, mas acho que já escrevo
bastante para ela e nunca para você. E eu e a Leticia somos muito alegres, você
não. Eu sempre me preocupei contigo, Fê. Em um filme que amo muito tem essa
personagem que é toda super alegre e serelepe e colorida, muito parecida
comigo, bem porralouca, sabe? Mas mesmo assim ela fica deprimida. Ela diz “tem
pessoas que não nasceram pra ser felizes”. Nossa, isso é muito triste. Não acho
que é bem assim, sei que há gente como eu que tem muita dificuldade em ser
triste e gente que tem dificuldade em ser feliz. Cê sabe que eu sempre te
alegro quando te vejo, é tudo que posso fazer. E, sei lá, falar uns livros pra
ti ler, filmes pra ver e musiquinhas procê escutar.
Eu ficava mais triste no ensino médio. Eu lembro de desenhar
e escrever coisas tristes enquanto esperava no corredor para entrar na aula. Eu
ficava lá sentado porque quase sempre matava a primeira aula. Quando eu era
pequeno lembro que às vezes ficava eufórico e que achava isso tão incrível que
ficava procurando alguma maneira, como uma fórmula secreta, para sentir aquele
sentimento mais uma vez.
Hoje é tudo diferente, tudo parece estar sob outra luz.
Agora eu tenho certeza que estou fazendo tudo certo. Eu não me traio, não faço
o que não quero (a não ser que esteja no trabalho e ganhe dinheiro pra isso,
faço cada coisa por dinheiro, mas isso não vem ao caso porque preciso alimentar
a mim e meus gatos) e nunca minto. Passei da idade de acreditar no que todo
mundo diz e ter preconceito com as coisas. Sou eu mesmo mesminho mesmo. Eu me
garanto.
É bom demais. Muito mano para de sair comigo por causa
disso, por eu ser eu, que coisa, né, não? Mas eu nunca ligo pra isso, é claro
que não valia a pena. Eu não fico mal por quase nada agora, no máximo fico
putinho mas passa muito rápido (tipo ontem que disseram que eu sou INTIMIDADOR
no trabalho só faltou falarem controlador, barulhento, grosso, mandão,
perfeccionista, neurótico...). Não consigo me importar muito. Eu saio e vejo o
céu e vou cantando por aí, o mundo é muito lindo, cara.
Tava calculando com meus botões que até maio do ano que vem
minha casa vai estar cem por cento. Preciso colocar uma porta, trocar outras
portas, colocar boxes e cortinas e ainda arrumar a rede elétrica da casa. Tem
um vazamento em um cano, uma caixa d’água para limpar, umidade nas paredes.
Ainda tem tanta coisa pra arrumar. Mas sei que vai dar tudo certo, eu já vejo
tudo na minha cabeça quando caminho devagar pela casa cantando. As paredes
estão se enchendo de palavras e desenhos meus e dos meus amigos, as plantas
nunca cresceram melhor, tem livros espalhados pela casa que cheira a bolo.
Acho que a vida é como um bolo e convenhamos que de bolo eu
e tu entendemos muito. A vida é um daqueles bolos que são os melhores. A massa
é mexida a mão e nunca fica super homogênea. Por alguma razão sempre tem algum
ingrediente a mais ou a menos que dá um gosto especial e a cobertura, sabe deus
porque, nunca cobre tudo e sempre fica concentrada em cima de parte do bolo que
também tem uns calombinhos. Pode ficar com minha metáfora do bolo, ela cheira a
canela.
Tava pensando mais cedo que ano que vem faço vinte e cinco
anos. Um quarto de século, que loucura, bicho. Mas eu acho que fui bem. Moro
numa casa linda com três gatos felizes e muito bolo. Eu quero que você fique
bem, Fê, e quando me quiser, quando precisar, me chama por favor.
Sabe que faço o bolo que cê quiser.
Beijo.

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