Cara, eu odeio teu namorado


Oi, B.

Faz eras que não te chamo para nada porque você nunca vai e quando vai leva o seu namorado aquele bosta do qual eu não sou muito fã. Nunca vou entender o porque dessa relação quase simbiótica de vocês. Lembro quando você quase terminou e eu e minha mãe fofocávamos cheios de esperança sobre isso. Porque se minha mãe e eu não vamos com a cara de alguém já aprendi que tem algo muito podre na pessoa.
Tô pensando em ti desde ontem ou anteontem, não sei direito. Saudade. Lembrei daquele dia em que acordamos cedo, eu ainda morava em São Berlonge com a Mamusca, para pegar o trólebus, metrô e então descer a Augusta sentido Jardins para ir ao MIS ver a expo do Bowie. Foi tão boa que depois fui de novo com a Verônica, lembro disso. Lembra que tinha um mendigo trilouco pedindo esmola na bilheteria do terminal. Foi engraçado.
Eu estou bem. Na verdade nunca estive melhor. É o auge da minha vida agora. Nunca fui mais bonito ou mais feliz. Minha vida é simples, finalmente, e linda. Passo as noites assando bolos e tortas, cozinho molhos, ratatouille, mingau e choconhaque. No verão acho que farei mais cuscuz e sorvetes. Agora fico bastante em casa. A casa é enorme e silenciosa, meus passos ecoam pela casa como sons tímidos, pois são pés que nunca tiveram uma casa muito grande. Escrevo nas paredes, escrevo minhas histórias, escrevo minhas receitas. Nos fins de semana todo mundo passa lá para almoçar e tomar café, limpo a casa, cuido das plantas, que nunca estiveram melhores, e os gatos tomam sol. Eles já se acostumaram com essa casa enorme e só consigo ficar feliz por vê-los tão felizes. Fico ansioso para chegar em casa e aproveitar a paz que existe lá. Agora não há nada que eu não possa fazer porque posso ser o que eu quiser.
Hoje no caminho para o metrô vi um crocs branco e todo cagado no meio da rua, na faixa de pedestres. Eu o recolhi e joguei na lata de lixo na esquina porque sei lá vai que uma velha tropeça nele e rola ladeira abaixo, o Ipiranga é cheio de casas velhas com velhas dentro. Até agora estou pensando se alguém foi procurar por ele, vai saber.
A Dona Cuzuda que mora no fim da minha rua continua obcecada pelo meu lixo. Dei uma festa no fds e ela teve a cara dura de vir pedir latinhas pra mim depois. Nada contra o ato de pedir latinhas, mas as latinhas estavam junta com um monte de lixo num saco ao lado da porta da cozinha onde para serem vistas ela teve que se DEBRUÇAR por cima do meu muro. Ou ela sente o cheiro de latas a vários metros. Caso queira saber o resto da minha história com a Dona Cuzuda vá ler o primeiro post do blog. O Vinicius, aquele que tu conheceu quando eu morava na Bastian Caverna em São Caetano dos Velhos e te chamei e é claro que você teve que levar o mala do seu namorado porque vocês NÃO PODEM SE SEPARAR, acha que a velha viu como eu tenho gatos, asso bolos, uso roupas quentinhas adoráveis e tenho muitas plantas e me viu como uma velha em potencial. Uma velha com potencial o bastante para ameaçar a posição dela de criatura mais antiga da rua e chefe da irmandade das anciãs.
UPDATE: ela evoluiu de nível, agora só me para rua e informa que pegou meu lixo. JURO POR DEUS. Que doideira, minha gente.
Voltando àquele dia na expo do Bowie no MIS, lembro que depois apareceu aquele teu amigo e encontrou a gente na fila do museu, o cara que é gay e que sempre me pareceu tomar decisões erradas como trocar rolê com a gente pra ir no Mc. Talvez seja por isso que você acabaram amigos, suas decisões nunca foram muito acertadas. Você sempre foi essa pessoa sensacional, mas que faz coisas que te fazem mal, depois reclama disso, e continua. Seu relacionamento parece existir porque você tem medo de ficar sozinha, eu não entendo. Bem, talvez entenda.
Quando eu fui morar com o Matheus e fazia tudo por ele acho que eu também tinha medo. Ele precisou ir embora para que eu lembrasse como é ser livre, como é ser eu. Fique três meses deprimido pra burro, nem o gosto da cerveja eu conseguia sentir direito. Omi é uma merda mesmo. E hoje eu sou minha própria pessoa. Não preciso de ninguém, se ficar com alguém é só porque eu quero. Freedom is just another name to nothing left to lose.
Queria muito te chamar pra ir lá em casa comer coisas deliciosas que eu faria pra ti, mas cara, eu simplesmente não consigo aceitar que você não possa andar por aí sozinha e que ainda por cima seu namorado seja uma pessoa desagradável com algo de podre no reino da Dinamarca. Não vou sair com você enquanto você não puder sair sozinha pra conversar comigo ou enquanto não souber que você é uma pessoa sozinha e isso é ótimo, todos nós somos com ou sem namorado.
Sempre vou te amar e quero tudo de bom na tua vida e pros seus gatos, sei que cê cuida deles bem demais assim como eu cuido dos meus.
Mas putaquepariu, eu odeio teu namorado.

Com amor, Bastian.

Comentários

Postagens mais visitadas