A troca safada
Sábado à noite eu fiz lasanha pro pessoal e enquanto a gente
comia contei a minha história cheia de pecado.
Tipo, tá entre sacanagem e traquinagem, your choice. Todo
ano eu passo na feira do livro da USP e deixo meu cu meus rins por lá em troca
de um quantidade exorbitante de livros. Cês tem que me ver sofrendo e bufando
com as sacolas no metrô, é de se notar. Bom, daí teve dois livros que deram
merda. Um é um saco, o autor parece uma criança falando difícil (daqueles
infelizes que ganharam um caralhada de prêmios de autor revelação e essas
porras e fazem quem lê o livro querer morrer do cu), o outro tá faltando trinta
e duas páginas. Sim, 32. Tava lendo, tava gostando, todo contente, e daí pah! Página
64. Da 32 foi direto pra 64. Fiquei até sem fôlego. Olhei, folheei, sacudi, tentei ler de ponta cabeça
plantando bananeira (o que eu não faço muito bem), olhei embaixo dos móveis e perguntei
para a Pólvora se ela havia comido um pedaço do livro (não seria a primeira
vez), mas nada de eu achar as 32 malditas páginas.
Pensei que talvez fosse um livro conceitual, abstrato, artístico
demais pra minha cabecinha sacar a jogada, mas acabei concluindo que foi
defeito mesmo e eu sou um puta dum sortudo.
Daí eu penso a coisa lógica: trocar a porra do livro por um
com todas as páginas. Mas o bonito aqui não acha a nota fiscal porque sou um
fucking genius que ou joga elas fora não querendo acumular papeis inúteis ou
deixa por aí e quando vi a Pólvora já comeu e tá tarde demais para recuperar (fico
mó encabulado quando preciso ir nos lugares pedir segunda via dos negócios:
“moço, preciso duma segunda via”
“Qual a razão?”
“Minha gata comeu. Perdi, né”
Daí eu sorrio e normalmente dá tudo certo). Daí penso em
mandar um e-mail pra editora ou ligar pra ver o que faço.
Isso aí mesmo que tu leu. Eu PENSO em fazer isso. Penso. Só
penso mesmo. Ligar ou mandar e-mail envolve um esforço mental que me exauri, só
de pensar começo a chorar e comer chocolate, e quando vi era agosto.
Toda noite eu ia dormir me sentindo culpado com esses dois
livrinhos separados no quarto dos livros. Eu podia escutar a voz deles (a do
livro sem páginas mais parecendo o monstro de Frankestein) lá do meu quarto.
Pobrezinhos.
Então uma vozinha muito sapeca fala baixinho lá do fundo da
minha cabeça (caso isso lhes aconteça procure o bar ou psiquiatra mais próximo):
“ei! Psiu! Bastian!”
“Hum?”, eu sempre falo bastante comigo mesmo como toda
pessoa equilibrada.
“você poderia trocar o livro!”
“Como é, migo mesmo? Fala mais alto”
“Você pode trocar o livro!”
“trocar? Como? Tô sem a nota”
“Você poderia trocar no Troca Livro!”
“Eita.”
O que migo mesmo propôs é o seguinte:
O Espaço Troca Livro é um bagulho público lá na terrinha, em
São Berlonge do Campo, onde minha mãe me levava quando eu era pequeno pra trocar
livros. E é muito legal porque é cheio de livros e piro de euforia em qualquer
lugar assim. Amava sair catando livros velhos pela casa que minha mãe não
gostava e sabe deus porque raios ela os comprou e depois trocar por livros
maravilhosos. Daí a ideia seria trocar o livro defeituoso que gemia no quarto
ao lado por um livro bom e jamais mencionar o defeito aos aspones funcionários
públicos que cuidam do troca livro. Sacou?
Mas aí eu falei comigo mesmo:
“porra, migo mesmo, não é sacanagem com eles? E se alguém
pegar o livro lá na frente, também não será sacanagem?”
Migo mesmo olhou pra mim com sua expressão insana e explicou
com muita paciência:
“pense mais com uma brincadeira! Os caras que trabalham no
troca livro não vão notar final são funcionários públicos e quando alguém pegar
o livro e depois notar a bosta o defeito vai ser engraçado! E ele ainda vai
ficar curioso e vai atrás de comprar o livro da autora com todas as páginas! E
depois ele vai trocar por outro livro e outra pessoa vai pegar o livro sem s
páginas e vai acontecer a mesma coisa! Vai
se criar um ciclo e uma autora muito boa vai fica ryca graças a você!!”, e dito
isso migo mesmo deu uma risada ensandecida e sumiu nos confins de minha mente
safadenha.
Eu tenho que admitir que eu seria um bom psicopata pelo
menos quanto a justificar meus atos.
Após muito andar de um lado para o outro, dialogar com meus
gatos, plantas, bolos, deus, acabei por decidir ir trocar o livro chato e o
defeituoso no Troca Livro. Lá fui eu segurando eles como se fossem uma bomba
disfarçada de bolo de fubá.
Dei os livros pra dois funcionários que fofocavam
alegremente sem o menor pudor sobre alguém que foi afastado por prisão de
ventre na secretaria de saneamento (uma tal de Elza, pobre Elza, pelo jeito ninguém
gostava dela) e fui escolher os dois livros que levaria no lugar dos que
deixei. O tempo todo eu estava tenso pensando que iam descobrir e que seria
levado enquanto chorava e me debatia para a prisão dos livros em alguma ilha
distante e sombria com as pessoas que cometeram as maiores atrocidades na
história da tipografia.
Peguei dois livros ótimos, um da Lygia Fagundes Telles e
outro do Jostein Gaarder, e fui embora. Nem olhei para trás com medo deles
cheirarem o meu medo por cima de seus bafos de café.
Mas deu tudo certo no final, tenho dois livros que prestam e
que ainda por cima tem todas as páginas.
A futura vítima de minha sacanagem esta por aí, desavisada,
caminhando para a frustração após a página 32.
Quando este momento
chegar ela vai escutar um som longínquo que parecerá um cacarejar a principio,
mas será eu gargalhando junto comigo mesmo em algum lugar cheio de livros com
todas as suas páginas.
Verifiquem as páginas dos livros antes de compra-los!
É isso.
Beijo.

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