Vidinha em Sampa

Kika, sua fofucha,

Tô com saudade. Como cê tá? Eu ainda não acredito que tu vai casar. Tá certo que cê sempre foi mais focada do que eu, mas mano, casar. Senhor, que absurdo. Tô pasmo ainda.
Da turma do boxe só falo com a Gaby praticamente, o resto é um bando de furões. Ou só crescemos pra lados diferentes. Não sei. Falei com a Mica um dia desses.
“Oi, Bastian, que saudade! Tá bem?”
“Tô, e você?”
(conversa padrão pra ver onde cada um tá morando e se ambos estão mais ou menos felizinhos e saudáveis)
“Vamos marcar um bar?”
“vamos marcar sim”
“eba! Vamos marcar um bar.”
“vamos marcar.”
“bar”
“marcar”
“É”
Óbvio que não marcamos e nos perdemos um do outro nas areias do tempo e trocas de número e celulares.
A Gaby eu vi faz uns três meses lá na terrinha, em São Berlonge. A gente sentou no posto pra tomar cerveja e chorar falar da vida. Ela tá terminando veterinária, acredita? Que absurdo. E eu aqui, tranquei Engenharia e nunca voltei.
Eu e a Pri nos falamos outro dia.
“Oi, Bastian! Tudo bem com você?”
Resumindo a ópera, também não marcamos nada.
Juro que é cuzice alheia porque eu vou pro bar até com quem eu não gosto. Antes a gente ia no bar pra socializar mesmo, beber era o de menos, agora é o contrário. Me dá uma cerveja que eu falo cm qualquer um. Tirando com bolsominion porque tudo tem limite nessa vida.
Tô no mesmo trabalho na zona sul e agora também moro na zona sul! (FOGOS DE ARTIFÍCIO). Levo uma meia hora pra ir e mais uma meia hora pra voltar pra casa. A vida nunca foi tão bela. Parei de pegar aquele trem cheio de vendedores pra São Caetano. Grazadeus, eu não aguentava mais. Aquele trem cheio de gente, vendedor gritando, gente sem desodorante, mãe berrando com o filho, criança chorando. Tenho certeza que são ótimas pessoas, eu que não devo ser porque não aguentava mais.
Agora só pego o metrô todo dia. Cê sabe que eu amo metrô, não sabe? Cresci vendo comédias românticas sobre garotas bonitas e independentes e por influência dessa cultura norte americana sempre sonhei em ser uma garota forte, bonita, independente que mora sozinha num apartamento gracinha com seu gato e vai todo dia pro trabalho de metrô lendo um livro. Bem, não sou uma garota, mas agora moro numa casa sem outros humanos e com três gatos e leio livros no metrô enquanto vou trabalhar. Yay! Toca aí. E não achei nenhum cara digno de comédia romântica, mas não tem importância, a vida é assim mesmo.
Aprendi todo o código de educação no metrô que é bem simples e consiste em sai da esquerda, filha da puta deixar a esquerda livre. Teve um dia que eu tava subindo a escada rolante do Tamanduateí quando um cara me grita de trás e abaixo de mim:
“Ow! Você de rosa”, há uma garota de rosa bloqueando a esquerda logo a frente, “libera a esquerda, sua vaca!”
Ela liberou e tudo mundo foi pro trabalho dançando e cantando cercados de beija-flores e borboletas.
Normalmente eu sou bem calminho no metrô, mas notei que esses anos despertaram quase uma segunda personalidade dentro de mim. Ela não faz nada além de comentários pra outros usuários do metrô tipo:
“enfia essa bolsa no cu, arrombado, que cê carrega aí, sua mãe?”
“reclama mesmo, vai ajudar.”
“pisa no meu pé que eu piso na tua cara.”
“se você não descer essa escada mais rápido vou fazer escondidinho com suas entranhas.”
“ai caralho, um velho.”
Como pode ver, nada demais, não machuco ninguém, fica tudo na minha cabeça.
Inclusive quero comprar um saco de pancada pra pendurar na minha casa e descontar minha raiva desse bando de fdp. Sinto falta disso que a gente fazia no boxe: bater.
Parei com o balé também. Tô velho. Não tava dando conta de chegar do serviço e ir pular, tava cansado. Cansado fisicamente e cansado das putices de menina faz isso e menino faz isso. Ah, tomar no cu, não tenho mais idade pra machismo. Aliás, nunca tive. Inferno.
Sim, sigo puta solteiro. Tava sentado na Paulista na quinta depois do trabalho vendo os omis passarem e cara, juro, nenhum me empolga. Eu consigo achar um defeito em cada um. Se não é um defeito que eu vejo ali e agora eu invento um na minha cabeça que vai aparecer depois quando estivermos casados e com filhinhos adotados. Quando eu der por mim ele vai votar no PSDB, vai deixar toalha molhada na cama, não vai apertar a descarga. Não sei, omi é uma merda, cansei, quero férias.
Tenho um date depois e tô aqui meio assim não sei se quero, eu quero? Ai, cristo. Mas o cara quer então provavelmente não vai desmarcar e eu vou lá vê-lo porque a carne é fraca. Ou vou mandar um whats falando que tô com dor nas cadeiras. Sei lá, não sei, sou maluco.
Vida em Sampa é basicamente metrô, muita gente, muito omi, mais gente ainda, prédios, protestinho básico na Paulista, cerveja, café e ainda mais gente.
Eu reclamo, mas eu amo. Não troco por nada. Imagina morar numa cidadezinha no interior pacata de doer, sem gente bonita e sem sinal. Credo. Não nasci pra isso. Amo sentar num bar na Alameda Santos e ver montes de gente estranha e desconhecida passar, passear nos parques e fazer piquenique no fim de semana reclamando porque ninguém lembrou de levar toalha pra pôr na grama, ficar feliz porque o metrô tá vazio e tem lugar, ver freiras, monges e caras vestidos de Deadpool passar na rua, bandinhas aleatórias tocando na Paulista, andar no Minhocão à noite. Nossa, amo.
Resumindo eu tô muito feliz e pasmo porque tu vai se casar. 
CARALHO, tu vai se casar.

Saudades do seu migo Bastian, beijocas, sua linda.

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