Saudade do Poli
Cara Paulinha,
Combinei de ir na quermesse
do Poli com uns migos esse sábado e lembrei de ti, é claro, a gente sempre se
via na feira do Poli quando eu ia tomar caldo de cana antes de ir pro balé e tu
tava lá com seus pais comprando uns tubérculos. Acho que você ainda deve ir lá
afinal tu trampa ali no fórum mesmo. Faz mó cota que eu não vou lá, nem fui no
último culto que rola ali na Fufa. Lembra daquela festa, o Culto a Dionísio?
Rola ali na Federal, já devo ter falado pra ti. Acho. Que saudade de ir pro
culto, chapar e rolar na grama ver os miguxos.
Uma das razões que quase não
vou mais pra terrinha é que eu me mudei. Nem te falei, né? Tô morando numa casa
gigante e amarela no Ipiranga agora porque eu sou maluco. Levo dez
minutos todo dia pra decidir em qual banheiro eu vou cagar. A campainha tá
quebrada e como bom velho que odeia todo mundo que eu sou não tenho qualquer
intenção de arrumar aquela merda por mais curioso que eu esteja pra saber que
som que ela faz. Quando chega alguém eu escuto a pessoa gritar ou bater palmas
e vejo sinais de fumaça vindo da rua, daí coloco a cabeça pra fora de onde
estiver e berro que já desço, carai. Daí cruzo corredores, escadas e portas e
passagens secretas pra sair da ala em que me encontro e achar alguma porta que
dê pra rua. Tô quase sempre ofegante quando finalmente abro a porta. Paulinha
de deus, eu não tenho mais idade pra tanta escada, devo ser maluco, mas eu amo
aquela casa.
Sempre releio O Apanhador no
Campo de Centeio e fico pensando como é mais ou menos verdade que a gente sente
saudade de tudo e todo, até do que foi meio bosta tipo quando a gente
trabalhava junto aí em São Berlonge do Campo. A gente tinha lá nossos momentos,
tinha até a fantasma, a Sofia da puta, lembra dela? Ela vivia batendo as
portas, eu tava lá sentado naquela minha sala comprida e gritava “Fecha a
porta, Sofia” e a porta batia na hora. Era uma assombração muito solícita.
Meu primo foi trabalhar lá,
credita? Volte e meia penso em pedir pra minha mãe que ainda fala com o resto
da família pra perguntar como andam a Guida (maluca de pedra) e Gorete (melhor
pessoa do mundo) e se a Dona Inês não passou desta pra melhor. Sempre achei que
aquela velha era uma alcóolatra discreta. Lembra como ela fumava escondido? Eu,
hein, cada uma.
A Jaque tá bem? Ainda tô
pasmo desde que tu contou que ela se separou e virou uma mulher ainda mais foda
e mais independente. Nossa, como amo quando as mina fazem isso. GO, GIRLS!
Quebrem tudo mesmo!
E como vai teu trabalho? O
povo aí é tão desequilibrado quanto o daqui? Deve ser tudo funcionário público
também, né? Tudo surtado. Tô meio puto aqui esses dias, deixa eu te contar.
Sempre fui muito simpático com os negos da minha equipe aqui, mas mano, esses
dias eles tavam falando tanto que fiquei de saco cheio. Daí depois do almoço
num guentei, estourei mesmo, dei esporro. Nunca tinha precisado dar esporro
aqui e fiquei surpreso com minha autoridade, faz uns cinco dias que ninguém
abre a boca. Cara, tá ótimo. Um da equipe tá meio puto comigo, mas tô cagando
se ele é um marmanjo de 45 anos com mulher e filho que não sabe entender um
pedido de silêncio. Foda-se. O resto aqui tá tudo igual. O mesmo bando de
tiozões (eu sigo sendo o mais novo nessa porra) que gosta de fazer uns piadões,
tomar café, errar uns negócios que me deixam puto, tomar café, almoçar, tomar
café, comer torrada, café, mais café, quero café. Tem umas cinco mulheres e os
homens são os típicos héteros com heterossexualidade de cristal. Devia tudo ir
dar meia hora de bunda por dia pra relaxar e largar mão de tanta frescura. O
melhor ainda é o Zé Roberto, um velhinho que é meu pseudo assessor e cheio das
piada. Cê enche o saco dele e ele te manda ir ver se tem água no hidrante ali
da rua. Ele me mata.
Os gatos estão bem. Enoque
segue obeso e carente, Pólvora ainda come o cocô dela e a Galeandra ainda tá
tentando virar estátua. Eu pretendo empalha-la quando ela virar estrelinha e
usar como apoio de livros. Gata louca. Eles ficaram bem com a mudança. Enoque e
Pólvora se adaptaram rapidamente e logo estavam correndo pelas escadas e
olhando os outros gatos pela janela. Galeandra ficou embaixo do sofá três dias,
tive que tira-la de lá porque tava ficando com medo dela cagar lá embaixo. Mas
do jeito que ela é assustada até o cu da bichinha devia ter fechado. Ela é
louca, tô falando. Agora ela esta bem, come ,caga, anda, mas passa a maior
parte de sua existência na cadeira da cozinha. Faz drama por qualquer coisa
como se tivesse trauma na vida dela. Ridícula.
Aposto que cê deve ter
imaginando como andam meus omis afinal sou eu, né, sempre fui a puta do rolê.
Então, não tem nenhum. Nem amorzinho, nem one night stand, nada, merda nenhuma,
tô velho, tô cansado, pensando em ir pro convento. Ultimamente só cuidei de
mim. Cuidei da mudança, cuidei dos gatos, limpei a casa, fiz hambúrguer,
assegurei minha mãe de que não estou passando fome e que ela não precisa me dar
três quilos de comida toda vez que me ver. Sério, não tá cabendo mais bolacha
no meu armário, chega, mãe, segura essa emoção aí. Cara, sair com omi dá
trabalho. Tenho que ficar bonito, passar maquiagem, pensar no que vestir, se
depilei minha bunda, não soltar pum, puxar assunto, demonstrar interesse, qual
seu nome? No que cê trabalha? Onde cê mora? ah, puta, mano,
que saco, não quero, me deixa ser solteiro. Só de imaginar todo esse processo
burocrático tudo isso pra dar já morri do cu três vezes. Então tô
solteiro, mas juro que tenho intenções de voltar a sair com caras porque bem, a
carne é fraca, né, Paulinha, gosto de trepar, dá uns beijos, uns amassos, umas
bitoquinhas no escurinho do cinema chupando dropes de anis, se a Déborah Kerr
que o Gregory Peck. Aliás, ultimamente tô concordando com Lady Bird (vi o filme
no cinema quatro vezes) e acho que dar uns amassos é melhor do que trepar
mesmo. Sei lá, deve ser a idade. Ou preguiça. Ambos. Tô velho.
Juro que te chamo pra minha
festinha de inauguração da Casa Amarela (data a ser divulgada), só chegar com
um engradado porque sou alcóolatra porque breja é amor.
Manda beijos nas bundas da tua
mamis, papis e mano. Saudade, Paulinha <3

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