Sobre algumas vezes no metrô
Fixei uma rotina agora que me mudei, finalmente. Não aguentava mais ficar entre duas casas, indo um dia arrumar uma pra depois dormir na outra. Tô exausto e planejo ter um colapso nervoso assim que possível, espere e verá.
Eu acordo às seis, às vezes até antes porque meu cérebro é pirado e paranoico até dormindo com medo de que eu me atrase, olha só que fofo, mas levanto por volta das seis e meia cercado por gatos alegres que tem esperança de ganhar whiskas sachê e saltitam a minha volta como coelhos. Dou whiskas sachê ou só ração seca, dependendo do dia da semana, e os gatos ficam felizões ou "meh, que bosta, bípede maldito". Faço café, como, cago, rego as plantas, ponho uma roupa socialmente aceitável (acredita que não posso trabalhar de moleton? acho um absurdo) e desço a rua pro metrô. Leio, faço a baldeação, torço pra não encontrar ninguém do serviço que queira conversar comigo porque eu só quero ler, cacete, gente, se alguém tá com um livro, deixa a pessoa ler em nome de gzuis, (hoje um colega topou comigo, deu oi e falou que eu sou jovem e devia ir pra Austrália fazer mochilão. Oi?!) e então desço e ando por quinze minutos até o trabalho porque o caminho é bonito e não tenho saco pra pegar busão, eu não, credo, chega de gente, odeio gente, basta o metrô.
Trabalho, almoço falando de futebol com os tiozões (pois é, o mundo dá voltas, até eu tô falando de futebol e eu nem entendo de futebol), trabalho mais e vou embora. Ás vezes passo no mercado e vou pra casa cozinhar, lavar roupa e dançar a macarena com meus gatos ou vou pro cinema e/ou pro bar ficar loucão curtir minha vida cosmopolita. Às vezes saio com algum guri, dou uns beijos ou fujo dele dando desculpa que minha vó quer ajuda pra fazer estrogonofe ou que é aniversário do meu gato. Cada maluco que eu saio às vezes, só gzuis mesmo.
E eu sei aproveitar as belezas do cotidiano. Sem contar dos chuchuzinhos que pegam metrô comigo e eu fico ali quietinho todo aiaiai pensando em como vamos começar uma conversação que nunca acontece e namorar, conhecer os pais, casar, ter dramas filhos e morrer juntinhos. Maldito cinema americana socando expectativas de romance na minha cabeça. Inferno.
Hoje eu fiquei feliz com um negócio: vi uma mulher pegar o cachecol que outra havia derrubado no vagão antes de descer do metrô e jogar para ela pegar na estação antes das portas fecharem. Me dá uma puta sensação boa de esperança na humanidade ver essas boas ações por aí. Nossa, fico muito feliz mesmo com isso.
Já me aconteceram uns negócios aleatórios no metrô que eu vou contar porque sim, é um páis livre e o bloguinho é meu.
Eu morei em São Bernardo do Campo, mais conhecida como São Berlondres ou São Berlonge, por vinte anos. É uma cidade grande com nada que uma cidade grande deveria ter, fedida e cheia de gente feia mal educada. Mas eu sou batateiro (nativo de São Berlonge) e posso falar mal, se alguém de fora falar mal da minha cidade pra mim eu encho de bolacha. E daí que pra vir pra São Paulo de São Bernardo é um suplício. Dor, lágrimas e sofrimento. Cê tem que pegar um trólebus, uma máquina mítica que não passa de um ônibus mais caro que é elétrico e interliga o ABC quase todinho, pra chegar no trem em Santo André ou no metrô no Jabaquara. Trem não chega em São Berlonge porque a vida é ingrata mesmo. Daí teve um dia que eu tava indo sabe deus onde e tava lá sentadinho no trololo quando um carinha gatinho simpático com alargador e tatuagem (aimeucoração) sentou do meu lado ouvindo Cazuza alto em seu celular (depois me falam mal de funkeiros). Mas como eu gosto de Cazuza não liguei (o resto no trólebus não sei) e quando eu fui descer no Jabaquara falei "valeu pela trilha!" com um sorrisinho que eu penso que é charmoso. O moleque me desce atrás de mim e pergunta se eu não queria ir na exposição do Cazuza no museu da língua portuguesa (o museu não tinha virado cinzas ainda). Eu fiz o usual, né, fiquei parado e surpreso que nem idiota por uns trinta segundos, entrei em pânico, dei umas cinco voltas em trono de mim mesmo e falei que "posso ir lá depois, tenho que fazer não sei o que antes". Juro que não lembro o que que eu tinha que fazer, minha memória fez assim "puuf!" e apagou tudo. Depois tentei ir e cheguei tarde demais porque o museu tava fechado. Imbecil que eu sou, ó aí, desperdicei o amor da minha vida. O Carma não perdoou e por isso tô solteiro.
Teve uma vez que uma senhora conversou comigo sobre Harry Potter quando viu que eu estava lendo um deles.
Teve outra vez que um senhor falou que eu era um moço direito que não se faz mais assim mocinhos direitos que nem eu porque usava uma camiseta do Led Zeppelin e lia Machado de Assis (sabe de nada, inocente).
Tudo acontece no metrô, eu até gosto dessas doideiras, ainda mais com a relação íntima que eu tenho com ele quando tô bêbadoque nem um gambá.
Volte e meia eu durmo na linha verde e fico indo de um lado pro outro. Imagino as pessoas que me veem ali sentado no banco babando noite adentro. Daí acordo assustado e ou desço na estação certa ou tenho um surto de demência e desço sei lá na Vila Prudente e até eu me tocar do que aconteceu e voltar pro sentido certo eu já dei três voltas na estação. Quando vou beber em outra linha e tenho que fazer baldeação na volta pra casa aí a desgraça é completa. Faço baldeação errada, vou pro sentido indevido e sabe deus onde posso parar. Mas, como já disse, meu santo é forte e acabo acordando no outro dia na minha cama vivo com alguns hematomas. Quando acho meu celular e carteira quase choro de alívio. Bêbado é uma merda.
Gosto do metrô no carnaval quando tem glitter em tudoaté no meu cu se pah.
Penso na linha azul como uma mãezona, na verde como uma moça meio metida de narizinho empinado, na vermelha como uma meliante pedindo meu celular, na amarela como uma "olha só, eu falo inglês" e na cinco como nunca vi, nem comi, eu só ouço falar.
Mas tenho fé no metrô. Um dia meus netos ou quem sabe minha décima quarta geração de gatos veja o metrô chegar em São Berlonge, aquela merda,.
Dica do tio: dormir bêbado no metrô é okay, dormir bêbado no trem é a morte.
Porque existe o trem, muito trem, várias linhas que vão até onde judas perdeu as cuecas e foi assaltado, e quando eu morava em São Caetano e pegava aquele tremmaldito que vai até Rio Grande das Trevas da Serra, teve uma vez que eu dormi. Por que, deus, por que. Acordei em Mauá pra lá da meia noite e fiquei sóbrio na hora com medo de ser morto. Mauá é um perigo, gente, só isso. Meu cu trincou e não passava nem micróbio. Chorei, esperneei, andei de um lado pro outro na estação, não tinha trem de volta, não tinha ônibus de volta, não tinha canoa de volta. Gastei cinquenta reais num Uber que eu quase beijei de alegria e que, como é de praxe na madrugada, me contou a história da vida dele, da mulher e das filhas, um anjo.
Agora chega de história, vou tomar um café que tô desmaiando, mão tremendo de abstinência, ó, e lembrem-se, crianças: não durmam no trem.
Beijo, beijo, fui.
Teve outra vez que um senhor falou que eu era um moço direito que não se faz mais assim mocinhos direitos que nem eu porque usava uma camiseta do Led Zeppelin e lia Machado de Assis (sabe de nada, inocente).
Tudo acontece no metrô, eu até gosto dessas doideiras, ainda mais com a relação íntima que eu tenho com ele quando tô bêbado
Volte e meia eu durmo na linha verde e fico indo de um lado pro outro. Imagino as pessoas que me veem ali sentado no banco babando noite adentro. Daí acordo assustado e ou desço na estação certa ou tenho um surto de demência e desço sei lá na Vila Prudente e até eu me tocar do que aconteceu e voltar pro sentido certo eu já dei três voltas na estação. Quando vou beber em outra linha e tenho que fazer baldeação na volta pra casa aí a desgraça é completa. Faço baldeação errada, vou pro sentido indevido e sabe deus onde posso parar. Mas, como já disse, meu santo é forte e acabo acordando no outro dia na minha cama vivo com alguns hematomas. Quando acho meu celular e carteira quase choro de alívio. Bêbado é uma merda.
Gosto do metrô no carnaval quando tem glitter em tudo
Penso na linha azul como uma mãezona, na verde como uma moça meio metida de narizinho empinado, na vermelha como uma meliante pedindo meu celular, na amarela como uma "olha só, eu falo inglês" e na cinco como nunca vi, nem comi, eu só ouço falar.
Mas tenho fé no metrô. Um dia meus netos ou quem sabe minha décima quarta geração de gatos veja o metrô chegar em São Berlonge
Dica do tio: dormir bêbado no metrô é okay, dormir bêbado no trem é a morte.
Porque existe o trem, muito trem, várias linhas que vão até onde judas perdeu as cuecas e foi assaltado, e quando eu morava em São Caetano e pegava aquele trem
Agora chega de história, vou tomar um café que tô desmaiando, mão tremendo de abstinência, ó, e lembrem-se, crianças: não durmam no trem.
Beijo, beijo, fui.

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