Desculpe a demora

Criatura,


Tava eu na segunda indo pro trabalho serelepe e pimposo na minha camisa azul do Star Wars quando comecei a pensar em ti em como fui um migo negligente nos últimos tempos ignorando áudios e não respondendo porra nenhuma. Na verdade é porque eu sou uma pessoa horrível foi por duas razões:
  1. Porque eu estava muito cansado pra caralho, mortinha mesmo;
  2. É porque eu tava EXAUSTO MESMO, MANO, tu não tem noção.
Mas sei que tu me entende muito muito bem e vou tentar resumir os últimos dias que depois conto melhor com café lá em casa. Eu finalmente entreguei as chaves da casa velha em São Caetano do Sul, aquela caverna maldita e minúscula úmida e cheia de traças e aranhas. OUVI UM “AMÉM, IRMÃOS!”?? Mas antes deixa o tio explicar como funfa esse paranauê de entregar chaves da casa que tu alugou. Tu precisa devolver a casa E.X.A.T.A.M.E.N.T.E. igual a quando você pegou ela. Cada prego, parede, buraco, traça, teia de aranha, tudinho no lugar. Daí fizeram a vistoria e faltava uma coisinha ou outra tipo um globo de luz que parece aquele emoticon de cocô. Bufei, me contive e fui comprar o maldito globo. Na loja tinha globos para naves da NASA mas não tinha o que eu queria, perguntei pro mano daquele setor:
“Vocês tem aquele globo de luz assim de vidro que parece um cocozão?”
“Como, senhor?”
Ai, gzuis cristo.
“Aquele lá que faz assim, ó”
E fiz uma série de sinais ininteligíveis pra tentar descrever o globo de luz. O atendente me olhou como se eu precisasse de ajuda do Instituto Bezerra de Menezes e não da dele, então eu perguntei se tinha qualquer globo do mesmo tamanho. Ele me mostrou umas opções caras pra chuchu então peguei uma baratinha qualquer e larguei na casa. Consegui entregar as chaves e fui embora olhando pela janela do carro para São Caetano do Sul como se eu fosse pra Antártida para jamais retornar. Gostaria de ter sentido maior carinho por aquela cidade, mas depois de tanto problema com vizinho e com aquele trem safado tudo que tinha na minha alma era o ranço mais puro e fodido.
Cheguei em casa acompanhado de minha mãe pra gente almoçar depois e a Dona Cuzuda (codinome pra eu não ser processado) me para na entrada. Putamerdacaralhocaceteporquemeudeusporque. Você se lembra de quando eu mal tinha pego as chaves da casa nova e você foi lá e tínhamos acabado de limpar tudo e estávamos no terraço observando a vizinhança? Tu viu aquele bando de velhas que cujas idades
somadas ultrapassam a do Egito e disse:
“Parecem umas bruxas.”
Estavam todas juntinhas reunidas na frente de umas das casas cacarejando. E eu respondi:
“É a reunião da irmandade.”
Pois bem, a Dona Cuzuda é a mais antiga delas. Digo antiga porque nem sei se o termo velha se aplica mais a ela. Ela se tornou algo mais parecido com um Ent de O Senhor dos Anéis, só que no lugar de musgo crescendo em lugares estranhos, ela tem pelos. Juro. E parece que a a cara dela começou a derreter e deslizar para baixo em algum ponto do século XIV e agora tá sinistro. Mas não é por isso que implico com ela, não. Juro que tenho uma razão maior para isso que é o seguinte: ELA MEXE NO MEU LIXO.
Foi assim. Faz mais ou menos um mês que tô morando lá e nesse período ela me parou umas três vezes pra me comunicar que o lixo é recolhido pelos lixeiros às segundas, quartas e sextas. Beleza, pra mim é simples. Mas daí fui lá colocar um lixinho com os cocôs dos meus gatos no lixo que fica no comecinho da rua numa TERÇA-FEIRA pensando com muita naturalidade que recolheriam o lixo no dia seguinte quando a velha me brota do chão envolta em chamas e falta do que fazer e diz ONE MORE TIME que o lixo é recolhido às segundas, quartas e sextas. Muni-me do meu “calma, não xinga e homicídio ainda é ilegal, Bastian” e perguntei:
“Mas não posso colocar na lata de lixo hoje? Alguém vai mexer? Quer que eu enfie no seu cu?
Quando ela fala ela fala como alguém com uma língua que começou a se deteriorar, esqueci de mencionar. Ela respondeu:
“Ah não fhbiushbgsnglkjng (palavras incompreensíveis), só achei que você não tinha entendido”, ó aí, ainda me chamou de retardado, vaca, “blablabla whiskas sachê mas já que você já colocou o lixinho aí então tudo bem.”
Dito isso a filha da puta só sai andando e eu fico ali tentando entender qualé a daquela múmia.
Beleza, vida que segue. Pra entrar na minha casa tu sabe que tem um portãozinho de metal que tem a metade da altura de um anão e não é nem bonito e não sei pra que aquilo serve, uma área de entrada onde ficam meus capachos, plantas e as portas que dão pra sala e pra cozinha. Às vezes quando eu vou limpar as caixas de areia dos gatos tem muito pouca coisa pra limpar e o saquinho fica quase vazio, daí eu deixo ele com um só nó na frente de uma das portas pra pegar de novo depois e encher com mais bosta para então jogar fora mesmo (aprendi nessa vida de paulistano que cobra sacolinha no supermercado a economizar plástico). Daí um dia eu chego em casa e noto que o saquinho de cocô não tô no lugar que o saquinho de cocô tava antes, tá na porta oposta. Emputeci e lancei um olhar mortal e silencioso na direção da casa da Dona Cuzuda porque eu SABIA QUE FOI ELA.
Contei isso pro Vinícius e ele disse:
“Bastian, ela fez isso porque ela queria que você soubesse que ela mexeu no seu lixo!”
Credo.
E agora estou de volta à tarde em que cheguei em casa com minha mãe e Dona Cuzuda me parou na entrada. Minha mãe já ciente da obsessão da velha por lixo, riu sozinha e entrou na
casa. Ridícula.
“SIM, DONA CUZUDA?” Eu perguntei. Ela é meio surda.
“Ah, é que eu tava passando nhénhénhé lero lero e vi que o saquinho de lixo tava aqui e “não tenho a mais pálida ideia do que ela disse) dia de lixo ( mais um espaço que não entendi nada, imagina como deve ser tomar um café com ela, deus me livre) mas aí deixei aí mesmo”
Pisquei umas três vezes e falei:
“A senhora não precisa abrir meu portãozinho (aquela porra não tranca) e mexer no meu lixo, Dona Cuzuda, deixa que eu me viro, tá bom?”
Ela meio que acenou com a cabeça e provavelmente ia me lembrar que o lixo é recolhido às segundas, quartas e sextas, mas eu entrei logo em casa e fechei a porta e tenho certeza que ela acrescentou meu nome a lista de pessoas que ela vai assombrar quando desencarnar.
E eu andei muito ocupado com os problemas da casa, vou tentar fazer uma listinha aqui das 327 coisas:
  1. Três goteiras no telhado (eram duas, mas ontem à noite choveu e eu achei mais uma. Batizei de Arrombada III);
  2. A máquina de lavar ficou maluca. Não enche de água direito e quando enche trava numa das luzinhas do painel luminoso dela e fica piscando. Acho que ela tá tentando fazer contato, mas como eu não entendo vou chamar o moço da assistência pra me ajudar a decodificar antes que eu tenha que andar pelado nesse frio;
  3. A lâmpada do corredor do térreo não liga e ninguém sabe onde fica o interruptor dela. Tinha um buraco que o Pedro, meu migo metido a marido de aluguel cujos serviços eu pago com hambúrguer, tentou ver se era um interruptor, mas daí quando ele foi testar uns fios eles explodiram e agora tenho uma mancha de cinzas na parede e nenhuma lâmpada no corredor. O Pedro sobreviveu sem sequelas aparentes e segue bem de saúde;
  4. A Pólvora fica olha pra porta do banheiro do primeiro andar que é tão velha quanto a casa e acho que tem um poltergeist nela (na porta, não na Pólvora);
  5. Preciso colocar uma porta na lavandeira (não, ainda não coloquei);
  6. Te falei da cama? Mano, então. A cama é um problema. Um pepino. Um cacto. Um abacaxi mutante com quatro olhos e oito pernas. Foi o seguinte. No dia da mudança a bendita não me passou pela escada do térreo pro quarto no primeiro andar. Mas daí os super homens da mudança disseram “não se preocupe! Nós vamos içar a cama!” Meu padinho pade ciço, eles fizeram uma gambiarra monstra quase um guindaste pra içar
  7. aquele trambolho até o terraço e então descer com a cama até o primeiro andar. Por pouco não arrebenta os fios que passam na rua e acabam com a luz do Ipiranga inteiro. Mas daí vem o melhor: a cama também não passou pela escada do segundo andar pro primeiro. Resultado; agora tem uma cama box de casal conjugado encostada na lavanderia esperando o juízo final enquanto eu tive que comprar outra cama e outro colchão que ainda não chegaram e que se não passarem pela escada após meus cálculos astrofísicos eu juro que desisto dessa vida de dona de casa solteira e vou pra um convento;
  8. Minha arte moderna. Não é bem um problema, é mais um troço que eu fiz. Então, eu sou só um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones e nunca tocou em argamassa. Daí tem um buraco na parede da lavanderia que eu pensei em tapar com um pouquinho de argamassa e também queria usar pra fixar uma pia e uma privada. Comprei cinco quilos e joguei tudo num balde e então despejei água (quem já usou argamassa levou a mão ao rosto agora falando “gzuis, que maluco esse garoto, dá pra fazer uma parede com esse  tanto de argamassa” DESCULPA, EU NÃO SABIA). Fui lá todo empolgado, a bicha mais pedreira do universo vestida de moleton e pantufa, fixei a pia e a privada e esqueci a espátula e uma colher de madeira linda que ganhei de presente no meu chá de panela dentro do balde onde ficaram petrificados. Quando dei por mim tava na cozinha fazendo hambúrguer para comemorar meus feitos pedreiros já era tarde. Eu decidi manter a obra de arte como símbolo da minha burrice e porque morro de preguiça de ficar subindo e descendo as escadas;
  9. O leitor de CD do PC tinha quebrado, mas daí ele voltou a funcionar depois da mudança. Quem parou de funcionar desta vez foi o teclado, putaquepariu;
  10. A casa é velha e foi datada pelo carbono-14 com algo entre 50 e 800 anos sendo quepesquisas recentes feitas por Harvard enunciam evidências de que a casa já estava neste local quando os primeiros Bandeirantes chegaram;
  11. Eu tô velho.
Ah, vai nem tem tanto pobrema assim, eu é que tô sendo drama queen mesmo.
E outra coisa que não me deixou especialmente comunicativo foi ficar dodói. Acordei cagado no domingo com febre e dor no corpo e pensei “é febre amarela, é agora que eu vou perecer.”
Juro que podia ver a luz. Fui pro hospital que fica ali na Nazaré caminhando devagar pensando em quem no mundo vai cuidar dos meus gatos. Vão ficar bem? E se quiserem separa-los? E minha mãe? Ai meu deus, sou tão jovem.
Cheguei no hospital, fui revirado, vistado, carimbado, e me deram aquela pulseirinha de papel. Me deram uma laranja. Nessa hora comecei a achar que talvez eu fosse viver pra ver meus gatos crescerem e entrarem na faculdade e comecei a pensar que o dia até que estava bonito. Fui lá falar com um migo pelo whats e ele me perguntou se eu já tinha pego a pulseirinha verde. Ué,
que mané verde? A minha é a laranja, falei. E ele:
“Xii...”
Pronto. Cê sabe que puxei minha mãe e cago cinco paranoias por minuto. Fui direto pro Pai Google que me falou isso: “risco imediato de perder função de órgãos ou membros”. Fudeu. Se eu não morrer, vou perder um braço ou sei lá um pâncreas. Nem lembro mais pra que serve o pâncreas. Ai meu deus, sou tão jovem.
Chegou minha vez na médica:
“Moça, cê vai me amputar alguma coisa?”
“Bom dia, tudo bem? Posso ajuda-lo?”
Sonsa.
“É que eu tô com a pulseira laranja”
Aí ela notou que eu tinha braços.
“Ahhh, e o que você sente?”
Descrevi meus sintomas que antecedem a morte. Já tava quase sentindo meus membros caírem e meu pâncreas falhar. Daí ela me cutucou daqui e me cutucou dali, estetoscópio, faz ahhhh, ela sentou e fez:
“Hum.”
É isso, vou morrer de febre amarela, de pulseira laranja ou do cu mesmo, pensei.
“Você não tem febre amarela porque você não esta amarelo quase laranja”, mas que ótima explicação, “e não sei porque te colocaram essa pulseira, você está bem.”
Nossa, não ia morrer, precisava ligar pros meus gatos e falar isso. Ela me receitou um antibiótico e um analgésico que eu não tomei cof cof e saí de lá de bem com a vida correndo pelos campos todo sorridente.
Mas resumindo, tô melhorzinho agora. Traz chá domingo? Também aceito chocolate e tranquilizantes ou qualquer coisa que dê barato.
Love you xoxo, Bastian.

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