Pra minha mãe

Desculpa mãe,

Já tô me adiantando aqui e pedindo desculpa pra não perder o hábito. Desculpa qualquer coisa, culpa minha. Tem tanta coisinha que nunca te contei por medo de represálias que resolvi despejar toda a merda aqui. Tó, coloca um traje a prova de radiotividade porque o negócio vai ser bravo. Vamo lá, mamusca.
Primeiramente, fora, Temer.
Segundamente, não sei bem porque nunca contei essas coisas, tu nunca foi uma mãe bruta punho de aço que ia quebrar meu rostinho pueril se eu falasse tudo logo de uma vez. Sei lá, eu amarelei na época. Juro que é tudo coisa boba e que já passou tirando meus traumas.
Quando eu tinha uns cinco anos eu quebrei uma estatueta linda de golfinhos que cê tinha e escondi ela no meu baú por anos, você nunca suspeitou e nunca notou o sumiço dos golfinhos o que me deixa mais surpreso agora que paro pra pensar.
Eu matei aula que nem um desgraçado desde o prézinho. Tudo começou uma tarde que me escondi no corredor atrás da sala de aula pra ficar fazendo desenho com dois coleguinhas que certamente se tornaram delinquentes agora. Depois foi ladeira abaixo. Em 2009 a professora de Crítica Literária (sim, eu tinha aula desta merda), que era a primeira aula toda segunda-feira pra todo mundo morrer do cu, chegou em mim e disse:
“Olha, tivemos 12 aulas este trimestre e você veio em 3, comofaz?”
Nem lembro como fez, mas isso aí é só uma amostra.
Era comum me achar lá embaixo chupando pirulito cabulando duas ou três aulas, num cantinho jogando uno com outro meliante ou às vezes “escondido” em outras salas de aulas. Olha que absurdo, fui matar aula em outra aula, o crime perfeito só que não. Mas meu santo foi mais forte e eu não repeti um ano. Verdade que bombei em matemática no terceiro ano, mas eu era tão amado por todos os professores tirando aquela vaca de matemática que me passaram por amor.
Eu empurrava crianças no barranco que tinha na EMEI e roubava os brinquedinhos mais gays que eu podia encontrar no parquinho. Eu enfiava nos bolsos, na cueca e inventava modos incríveis de contrabandear patrimônio público. E ainda pegava a cara das crianças que ameaçavam de me denunciar e enfiava na areia. Eu era uma criancinha selvagem que sobreviveria no deserto de Mad Max.
Uma vez um moleque tentou cortar meu dedo fora com uma tesoura sem ponta e depois eu que sou malvado, não conseguiu, e no intervalo tirei tudo a limpo e ninguém naquela escola já engoliu mais areia do que ele.
Eu roubava lantejoulas e glitter no prézinho e roubei peças do jogo de xadrez de madeira que ficava na frente da sala da coordenadora no ensino médio. Temos um veado cleptomaníaco aqui, gente.
Eu arranquei o braço do boneco de Elvis que sua amiga Margarida tinha uma vez que tu me levou na casa dela.
Roubaram meu celular na Parada Gay esse ano e nem te contei pra você não ficar falando merda por horas.
Eu não gosto do jeito que você cozinha inhame e acho que você poderia colocar mais sal na comida. Mãe, nós dois temos pressão baixa, vai por mim, sal realmente não é o nosso problema.
Lembra quando plantaram umas plantinhas ilegais no estacionamento e foi um escarcéu quando descobriram? Eu posso ter tido alguma coisa a ver com aquilo.
Eu bebo que nem um desgraçado desde os doze anos.
Eu nunca fui muito fã da Dona Romilda que tomava conta de mim quando era pequeno. Tinha medo daquelas mãos de alicate nas minhas bochechas. Sei que você fez o que era preciso e o que deu na época porque eu era muito piquetucho pra ficar sozinho, obviamente, mas você não tem ideia do alívio indescritível que eu sentia quando tu chegava pra me buscar.
Sei que a gente brigava demais antes de eu sair de casa pra viver minha vida. É porque temos personalidades enormes demais que não cabem no mesmo recinto por muito tempo, acho que você sabe disso.
Hoje em dia eu adoro quando você vai lá em casa tomar café ou eu vou na tua, a gente toma café demais, mas a vida é assim mesmo. Desculpa toda esta merda qualquer coisa, cê sabe que te amo e sempre fico aliviado quando te vejo.

Beijo na bunda, seu filho.

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