Linha M
Ontem uma mulher fez questão de dizer em alto e bom som a todos com ela em nosso vagão no metrô que alguém nos ama e que seu nome é Jesus.
Imagino por que ela faz isso. O que faz com que ela tenha a necessidade de dizer algo sobre alguém que ela não conhece e que também não nos conhece? Ela se sente tão só assim?
Hoje havia um grande vira-lata preto e branco na entrada do metrô pela qual passo todo dia. Parecia procurar algo, alguém, talvez só o afeto ou lanche de algum estranho. O desejo de adotar um cachorro e o modo triste daquele cão me marcaram esta manhã branca de nuvens.
Nessa época do ano lembro de filmes da Sessão da Tarde e do tanque de guerra que ganhei quando tinha seis anos. Lembro que a caixa dele estava embaixo da árvore embrulhada em papel amarelo, um dia depois do natal, uma surpresa engenhosa e, por alguma razão, atrasada apenas um dia de minha mãe. Um dos brinquedos com o qual eu mais brinquei e conservei. Hoje ele está na cristaleira de minha sala pronto a atirar mísseis se for necessário.
Tenho lido mais um livro de Patti Smith e estou calmo e reflexivo como ela. Sempre me senti como nos livros ou filmes que passam por mim. Como se eu não tivesse personalidade, mas algo amorfo e maleável empolgado em ser o que quer que me fascine no momento.
Tenho andado pela casa e lembrado muito. Encho as paredes com fotos e palavras. Por vezes sou mais minhas lembranças do que o presente que eu nem sei se chega a existir de fato. Tão rápido como roçar de penas que quando passa não é mais e quando não veio ainda não foi. Ás vezes estendo a mão e pego o presente, mas quando percebo ele se foi e eu não sei mais o que é verdade.

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