Cruel

Arrumo os livros aos poucos nas prateleiras com calma e cuidado ou rudeza dependendo do momento e distância entre meu braço e destino. Quero abrir uma padaria, mas por falta de tempo, dinheiro e planos não o faço, sigo aqui, no mesmo trabalho com pessoas cada vez piores. O que faço? Mas elas não estão piores, eu só vejo melhor.
Quero descer a Augusta olhando os livros nas bancas até o bar onde é um de meus refúgios junto com minha casa amarela.
Ontem ao ir ao cinema fiquei assustado com o capitalismo selvagem que nos cerca. Copos em formatos de Storm Troupers a vários dinheiros,cadeiras de cinema mais caras devido a seu conforto, McDonalds cada vez maiores e mais complexos. Tudo enquanto pessoas em situação de rua dormem em bancos nos pontos de ônibus projetados para que elas não fiquem confortáveis ao se deitar neles. Crianças indo para lá e para cá pedindo dinheiro, vendendo balas. Crianças invisíveis, pois ao se tornarem uma verdade inconveniente não são vistas mais como crianças. A família tradicional não acredita mais nelas. Acredita menos nelas do que nos adultos. E as crianças que falam contra os adultos que colocam fogo no mundo são taxadas como perversas, desocupadas, dementes. Estou cansado do discurso de esperança enquanto o mundo queima. É cruel.
Cinco crianças foram assassinadas pelo Estado este ano no Rio de Janeiro e o país não parou. Cada café e bar caro no Leblon e Copacabana abriu suas portas normalmente. O governador não fez um discurso lamentando a morte. O presidente não se importa. Os genocidas sorriem e dormem a noite. Não estão nem desconfortáveis, não sentem vergonha. Quem sente somos nós. Por isso ele é nosso presidente. As bundas continuam no sofá vendo o que acontece. E propagandas dos cafés e bares de bairros "nobres". Trailers de filmes. No metrô passa um anúncio sobre viagens para Europa enquanto as crianças invisíveis distribuem papéis pedindo dinheiro e comida.
Quem aqui é cruel?

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