Acostumar
Kindred é um dos melhores livros que já li. As relações construídas por Octavia Butler na história com viagem no tempo são mais reais do que a maioria das que existem fora dos livros. O tempo é apenas um grande e perigoso detalhe. O livro mostra que podemos nos acostumar com qualquer coisa, não importa o quão abominável seja, como escravidão, como Dana mostra nesta história. E então podemos colocar mais nesse aspecto: podemos nos acostumar com ditadura, tortura, autoritarismo, homofobia, racismo, machismo, transfobia, censura e todos esses terrores tão intimamente ligados e profundamente arraigados em nós.
Pensem bem antes de se acostumar.
Agora traço um comparativo entre duas grandes escritoras de Ficção Científica que já são enormes por serem mulheres que se destacaram em um (dos muitos) campos quase que exclusivamente masculinos. É um paralelo que pode ser feito em relação a mulheres em diversos campos (viram a miss universo negra? Só um exemplo), mas estas duas serão meu exemplo por serem algo que conheço bem.
Primeiro falemos de Octavia Butler, a autora de Kindred. Octavia Estelle Butler foi uma escritora afro-americana, falecida em 2006, filha de uma empregada doméstica e de um engraxate, ela era extremamente tímida, mas cresceu lendo livros em bibliotecas e decidiu que seria uma escritora de best sellers. Não é tão simples quanto parece por mais que gostaríamos que fosse. Ela sofreu racismo a vida inteira. Como criança tinha uma auto estima de merda por conta disso e então se enfurnava em bibliotecas e em livros. Mas foi pensando e aprendendo até se tornar inconformada com essa sociedade errada. Seus protagonistas seriam sim mulheres negras e ela se tornaria famosa como escritora. E conseguiu. Sua história de luta é linda e memorável, para dizer o mínimo, e é uma honra ler o livro dessa mulher. Ela escrevia bem porque nasceu pra isso e porque lutou por isso. Não se nasce mulher, mas torna-se. Ela tornou-se escritora com toda a determinação que nenhum escritor homem ou escritoras brancas precisaram ter. Imagine se Jane Austeen ou Clarice Lispector fossem mulheres negras? Sim, tentem apenas imaginar e, se alcançarem um cenário minimamente favorável, digam-me.
Agora Ursula Kroeber Le Guin, autora americana de ficção científica e ficção fantástica, teve uma vida muito mais fácil do que Octavia, não foi moleza, é lógico. Se a vida fosse fácil não teria graça e ela já é difícil mesmo sem machismo e racismo. Filha de um antropólogo e uma escritora de sucesso, cresceu em uma casa grande cheia de livros, visitas de acadêmicos, conversas livres. Cresceu com irmãos que, como ela, foram incentivados e conduzidos as palavras e as possibilidades de uma vida boa com todos os seus direitos. Não tinham medo de pegar o ônibus errado (ela nasceu em 1929, mesmo ano em que nasceu Martin Luther King) ou andar na vizinhança errada, ou entrar na loja errada ou estar ou fazer qualquer coisa "errada" por sua cor de pele. Desde pequena ela demonstrou talento para escrever e, provavelmente, foi incentivada apesar de ser uma mulher, pois para mulheres brancas, a escrita era possível. Ninguém a parou em algum momento, como Hazel, tia de Octavia, e disse: "querida... negros não podem ser escritores". Imagine que é com você, pequenx e empolgadx com algo que você percebe que faz bem e que ama fazer, e vem um adulto importante pra ti e te diz: "queridx... mulheres / negros / gays / trans / lésbicas / (encaixe o grupo que sofre preconceito estrutural na sociedade aqui) não podem ser escritores / jogadores de futebol / jornalistas / atores / etc". Gostoso, né? Super saudável e natural, não? Normal pra cacete, né? Tenha isso em mente. Le Guin teve uma bela e longa carreira literária de mais de cinquenta anos e escreveu divinamente. Só quero deixar bem claro as grandes diferenças que o racismo impõe. Uma não é melhor do que a outra, mas as condições de seu ambiente e sociedade alteram completamente sua obra e carreira e a maneira como as vemos. Uma pessoa não é melhor do que a outra, mas devemos saber as diferenças. Devemos entender como é a vida para cada um. Cota não é esmola.
Enquanto Octavia focou desde o início na libertação e empoderamento de mulheres negras, Le Guin focou em imaginar diferentes sociedades bem como analogias relacionadas ao comunismo, capitalismo e anarquismo, que são brilhantes, mas ela não tinha protagonistas femininas fortes e /ou negras. Essas questões foram compreensivelmente excluídas da maioria de suas obras por causa de seu ambiente e criação favorável a ela por ser uma mulher branca de classe alta. Diferente de Octavia que cresceu em uma sociedade que sempre quis matá-la. Octavia precisou lutar com todo seu coração para sobreviver, Ursula não, e é importante que saibamos as diferenças. Não devemos rebaixar qualquer uma delas, mas ter a criação e vida em mente tanto delas como de outras pessoas. Desprezar é separar e todos devem estar na mesma luta. Devemos tentar entender.
E devemos ter em mente o perdão e saber ser indulgentes, pois as pessoas percebem o que fazem, aceitam seus erros, admitem, e mudam, às vezes, para melhor.
Le Guin recebeu críticas por ser uma mulher tão nobre e destacável em um meio tão masculino e, incoerentemente, não dar atenção às mulheres, não criar histórias com personagens femininas importantes e muito menos dar atenção a temáticas femininas de superação. Ela não deu atenção ao que deveria ser óbvio: o feminismo. Onde ele estava?
Mas ela percebeu o que fez conforme mostra o documentário "Os Mundos de Ursula K. Le Guin". Ela conta como foi uma autora fingindo ser um homem. Conta como e porque demorou tanto para escrever uma novela na qual a mulher fosse uma protagonista e não uma personagem coadjuvante ou de fundo sem qualquer função decente. Ela diz: "O que eu estive fazendo como uma escritora foi ser uma mulher fingindo pensar como um homem... Eu tive que repensar todo o meu estil ode escrever ficção... Foi importante pensar sobre privilégio e poder e dominação em termos de gênero, o que foi algo que a ficção científica e a fantasia não haviam feito," ela conta ao entrevistador e diretor do documentário, Arwen Curry, "Tudo que eu mudei foi o ponto de vista. De repente nós vemos Terramar... do ponto de vista de de quem não tem poder algum."
Ela não chegou a escrever sobre racismo ou ainda a ter personagens negros importantes, o que, apesar de suas histórias tratarem de mundo fictícios, seria importante mesmo que fosse colocado através de alguma analogia com raças e histórias criadas para seus mundos.
Ela não chegou a escrever sobre racismo ou ainda a ter personagens negros importantes, o que, apesar de suas histórias tratarem de mundo fictícios, seria importante mesmo que fosse colocado através de alguma analogia com raças e histórias criadas para seus mundos.
Ursula coloca de maneira impressionante a questão de gênero em A Mão Esquerda da Escuridão na qual os habitantes de um planeta tem gênero fluído e não há machismo, mas falha na questão do racismo, algo que não deveria ser ignorado por nenhum autor.
Repito que uma não é melhor do que a outra, mas uma das duas autoras teve contato com uma segregação tamanha que lhe causou revolta e desejo em mudar tudo, enquanto a outra demorou a aprender. Uma fala de racismo, a outra não. Não vou comparar todos os autores e autoras, porque isso não levaria a nada e, como disse, Jane Austen não era negra.
Este post é apenas para fazer pensar e perceber o mundo que nos rodeia e quem somos nós neste contexto. Não somos todos iguais. Temos criações, revoltas, condições, privilégios, direitos e falta ou excesso destes.
Duas falas para encerrar. Uma de Angela Davis: "Não basta não ser racista, é necessário ser antiracista."
Ursula fala de poder no documentário que citei ali em cima e finalizo com uma fala de Octavia Butler sobre o mesmo assunto: "Eu comecei a escrever sobre poder porque eu tinha muito pouco".




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