Esquina
Daí lá estava eu sentadinho no meu cantinho na hora do
almoço. Meu cantinho é uma esquina onde fechou um restaurante há anos no
quarteirão em que trabalho. Fico sentado lá lendo, pois não há qualquer
lugar de lazer neste bairro maldito cheio de coxinha que é o Planalto
Paulista. Não temos praças ou shoppings ou, sei lá, uma livraria ou qualquer
espaço “sente-se que ninguém te enche o saco a não ser aquele colega mala cuzão que acha que tu quer papo na hora do almoço”. E na esquina ninguém me enche o
saco. O Planalto Paulista, pra quem não sabe, é um tanto conhecido por suas
ruas. Mais especificamente por seu comércio muito específico. Comércio que envolve
mulheres com poucas roupas que ficam nas ruas e esquinas dispostas a troca de
fluídos (e sabe Deus mais o que, já ouvi e li cada uma) com estranhos que passam com carrões antes de
ir pra casa jantar com mulher e filhos e querem um aperitivo nesse drive thru carnal. Eu chamo elas
educadamente de “primas” porque sou educado, e sei que chamar de “traveco” é
errado, feio, repulsivo e ofensivo (pena que só eu aqui tenho empatia e decência o
bastante pra ter noção disso e não ficar de piadinha transfóbica nos papo hahaha vocês são tão engraçados, tiozões LGBT fóbicos machistas do cacete que não sabem copiar e colar direito. Seus lixo).
Seguindo. Chega a moça no meio do terceiro capítulo do volume 1 de Morro dos Ventos Uivantes (Lockwood acaba de ir embora tipo quase expulso após todos os seus mimimis), que se move literalmente como uma
boneca meio travada, toda magreza e maquiagem, e pergunta muito educadamente se
pode sentar do meu lado. Eu, que sou muito bobo educado, falo “claro”, afinal a
rua é pública e eu também.
Daí ela diz, sempre muito educada: "é que eu fui expulsa de casa, não tenho nada. Fiquei imaginando se cê curte umas paradas."
Eu sempre muito bobo louco viciado em dorgas até pensei em perguntar na maior inocência do que é que ela estava falando, mas como bom moço direito de família que nem sabe o que é marijuana (acho que é algum tempero tipo salsa, certeza que é) respondo: "que cê tem aí? ah não, valeu, moça, não curto umas paradas, não. Preciso ir agora. Boa sorte!".
Ela diz tchau muito educadamente com um belo sorriso e segue seu caminho.
Isso é trabalhar no Planalto Paulista, minha gente. Onde os coxinhas milionários concentram suas rendas absurdas e seus ternos e carros enormes, reclamam do preço do tomate, pagam prostitutas que trabalham literalmente na esquina e depois "cuidam" de suas famílias tradicionais propaganda da Qualy. Uhul, viva, como é bom voltar de férias.

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