Chico
Fiquei todo chateado quando me falaram outro dia no bar que
o Chico ia sair definitivamente do Brasil. Ó Deus, ó vida, ó azar, Chico, não
me deixe pelamor.
Cresci ouvindo minha mãe cantar e tocar Chico lá em casa.
Era Chico pra todo lado. Roda Viva, Cálice, Apesar de Você, A Banda, Construção
e Cotidiano, essa última sempre foi uma das favoritas absolutas minha e de
minha mãe. Eu chorava quando ela cantava Retrato em Branco e Preto. Cresci e
agora amo (não quer dizer que não choro arrancando os cabelos).
Tava ouvindo Nina ontem enquanto tomava banho. É uma valsa
linda sobre uma garota muito branca de Moscou:
“Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou”
Eu sempre descubro coisas novas sobre as músicas dele. Eu, parece
que sou novo demais ainda, nem sabia que Bastidores foi eternizada pelo Cauby
Peixoto (nunca parei pra ouvir este último. Porque nos tempos atuais é o que
fazemos. Não escutamos mais muito rádio ou vemos a MTV – muitas saudades dela –
agora nós paramos pra ouvir o que nos indicam, o que queremos. Pelo menos eu
sou assim). Gosto da versão ao vivo de Bastidores do Chico mesmo, amo como ele
interpreta, como ele vira mulher, homem, jovem, velho e velha.
Cê tem que crescer para amar Chico. Tem que crescer demais para
entender Teresinha, Atrás da Porta e Sem Fantasia. Amor e desespero, amor e
sexo.
É difícil escolher favoritas ou trechos favoritos, mas fico
com estes:
“Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua”
De Atrás da Porta
“vem, eu te quero fraco
vem que eu te quero tolo
vem, eu te quero todo meu”
De Sem Fantasia
“Mesmo com toda a fama
Com toda a brahma
Com toda a cama
Com toda a lama
A gente vai levando”
De Vai Levando
“Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele
Guardado em mim
Te incendeia um pouco”
De Tire as Mãos de Mim que é umas das mais desesperadas que conheço dele. Sobre estar
com alguém novo e querer o que tinha antes com a pessoa antiga. Esse desespero
de querer e não querer.
Há a classicona Geni e o Zepelim que é absolutamente
brilhante em sua letra e sonoridade como tudo que é dele. Ela tira do armário
toda a hipocrisia machista da sociedade que sempre pena a mulher quando lhe é conveniente.
“Dou porrada três por quatro e nem me despenteio!
Porque eu já tô de saco cheio”
Partido Alto cuja versão da Cássia sempre será a melhor pra
mim principalmente quando no fim da música no acústico que ela fez pra MTV em
2001 (eu tinha sete aninhos) ela diz: “Não sei se vocês sabem, mas Chico é meu verdadeiro
pai”. Sempre rio.
“Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré
Com negros torsos nus deixam
Em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné”
De Caravanas, absolutamente brilhante, do último álbum que
tem o mesmo título.
Falando do último álbum, houve uma galera reclamando que Tua
Cantiga é machista por causa da linha: “Largo mulher e filhos e de joelhos vou
te seguir”.
Chico nunca largou mulher e filhos e sempre se responsabilizou
por sua família. Pra mim o que ele quis dizer é sobre aquele amor tamanho que
você larga tudo e faz de tudo sem pestanejar, sem pensar nos outros. Amor é uma coisa louca, não sejamos tão cruéis. Não
critico, já fiz o mesmo, já amei e já sofri, sou gente grande e por isso amo o
Chico.
Ele estava com Jean Wyllys em Paris na terça, dia 25 de junho, lendo cartas para Lula naquele calor maluco (psicose climática e não aquecimento global segundo o presidente bozo) que tá rolando na França agora. Teve vídeos da Renata Sorrah, Camila Pitanga e seu pai e Marieta Severo lendo algumas. Imagina que lindo foi aquilo.
E parabéns pra ele pelo prêmio Camões mais do que merecido pelo conjunto de sua obra fora do comum.
E por último e talvez mais importante, Chico não vai ficar na França para sempre.
Ele disse que pediu um visto de longa duração para escrever com mais tranquilidade, o que só pode ser bom. Mas ele volta. O que me nos mostra que nem sempre se deve acreditar nas notícias de bar. Apesar de quase tudo que escuto lá ser verdade e muitas vezes em primeira mão.
Vida longa ao Chico!

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