Nunca a mesma espuma
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| Estava mucho loko ao tirar a foto |
Ao me ver atravessar a rua em meio a garoa agarrado com o livro que tento proteger ao máximo da água você perceberia que eu sou alguém que lutaria com sua vida por um filho de papel e tinta, seja adotado ou emprestado. Apenas um comentário sobre mim.
A espuma a que me refiro no título é a espuma dos dias, todo esse resto que fica da mistura de tudo que fazemos. A Espuma dos Dias é também título de um filme com Audrey Tautou muito belo onde tudo é diferente, mas é o mesmo.
Quando passo mais de um dia sozinho entre trabalho e casa, no máximo um mercado ou padaria no meio do caminho entre ambos, eu fico com impressões causadas por sonhos dos quais não lembro direito. Tenho a impressão causada a ver uma mulher em trabalho de parto, que não lembro se terminou bem, mas quero acreditar que sim. Tive uma outra impressão enquanto lia no meu canto inabitado na hora do almoço, mas esqueci qual foi.
Virei de ano e sigo o mesmo - casa, trabalho, hábitos - com os hábitos um pouco mais intensos talvez, entre café, álcool e dorgas. Mas isso é o mundo que me atribui: bebemos para suportar o trabalho que nos dá dinheiro para beber. E para para o aluguel e a ração dos gatos, é claro. Eu pareço mais sábio, um pouco mais triste, um pouco mais louco, sem paciência alguma (acabou em 2013, acho). Eu ainda quero ser e fazer tantas coisas e continuo sem tempo para muitas delas.
O primeiro pão do ano foi de azeite e foi um desastre. Não cresceu; seria uma ótima arma medieval ou excelente peso de papel. Preferi ignorar sua possível serventia ao colocar tamanho fracasso no lixo. E o bolo de cenoura seguinte não ficou grande coisa. Temi perder meu talento: uma habilidade conquistada com muito suor. Não nasci cozinhando, mas aprendi muito bem. Respirei fundo e voltei a cozinha.
Organizei tudo, arrumei o cômodo e cabeça e fiz excelentes cookies de banana, muffins de maçã, geleia de pêssego, arroz à grega, molho de tomate, estrogonofe e polenta. Ufa, ainda estou aqui. Mudado, mas não tanto. Hoje farei pão de batata e batata doce bem como uma torta de maçã que prometi trazer para minhas sister no trabalho; fiéis cúmplices no batente e, um laço ainda mais forte no ambiente corporativo, no ódio aos mesmos colegas.
Não me considerava uma pessoa cheia de ódio porque, de fato, eu não era. Isso foi antes de conhecer a - chamemos a de Pomba por sua voz ser do mesmo tipo de som das aves que trepam em seu telhado. Sendo que a voz dela nunca cessa. Como um murmúrio irritante que você não sabe se é real ou é doideira da tua cabeça. Ruído da voz dela falando com as jovens aprendizes que, assim como outros excelentíssimos funcionários, tem a mesma idade mental de Pomba (10 anos). Antes eu via, por exemplo, a cara do coiso, nosso antipresidente, e pensava "credo." Eu vejo a cara de Pomba e quero arrancar os dentes dela com meu teclado aos berros. Sim, meus senhores, o ódio pode ser incutido em todos nós. A diferença é que eu sei que se esculpir essa vaca na porrada, vou pra cadeia. Para a sorte e meu azar que não posso matar a vagabunda dela eu tenho plena consciência do fato e também existem cadeias e um sistema de leis.
Mas par ao inferno com eles, ainda sou um grande cozinheiro. E muito feliz. Fui ao show do Milton Nascimento no último sábado e foi maravigold. E estou com dois chupões colossais em meu pescoço branquíssimo que escondo com camisas fechadas e cachecóis. Mas não escondo bem, pois gosto de mostrar minha felicidade. E satisfação intensa. Deus, foi uma ótima noite que acho que não se repetirá. Em alta voz não direi que é paixão - e não acho que seja mesmo - mas adoraria vê-lo mais vezes. Não me importo de ter de usar mais cachecóis e echarpes. Seria fácil tendo em vista que no escritório temos duas temperaturas graças as disfunções hormonais dos destemperados: cu de Satã ou Tundra ártica. Normalmente eles optam pela segunda e o magrelo aqui sem infraestrutura para temperaturas baixas sofre fungando em silêncio por ser a minoria.
A situação no país segue triste. Minha São Paulo parece bela, mas nada está melhorando de fato. As pessoas seguem desempregadas, a passagem sobe indiferente a distância e conduções para a periferia. População de rua aumenta e me pedem mais coisas enquanto tomo cerveja com amigos que, como eu, tem onde morar. Não somos invisíveis, mas o povo que dorme na rua é. O conformismo assusta e continuo pensando em, afinal, quem é cruel? Eles, os renegados, ou nós, os eleitos? Quem é um sobrevivente? Eles, mortos para nós, ou todo o resto, um pouco morto por dentro.
É isso, eu sigo em meio a espuma e o que boia nela. Não sei aonde essa água vai me levar, se para o futuro ou para meus fantasmas. Respiro bem, por enquanto, e me mantenho firme. Cuido de mim e dos gatos. Tento cuidar dos meus amigos o melhor que posso. Tento nos manter unidos em face da crueldade dos tempos, da perversidade dos que riem do que é real para dizer o contrário. Não tenho muita esperança, mas desespero. E o desespero me faz continuar mais do que nunca. Me faz querer cuspir e rir da cara de quem cita nazistas. Rir com desprezo de homens tão maus, tão tolos, tão vis. Falo alto no bar, falo alto no trabalho, mas eu sou um privilegiado. O que não me impede de usar minha voz em favor de quem não é. Tenho medo do que não posso enfrentar e tenho saudade, saudade de quase tudo.
Hoje à noite estarei em casa comendo uma fatia de pão com azeite e um pedaço de torta de maçã, depois disso, não posso dizer. Mas eu farei o que posso e será o melhor. Que venha o futuro para mim e meus fantasmas.







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