Me deixa almoçar, cacete

Almoço pra mim é um negócio sagrado. Tudo que envolve comida é sagrado. Cozinhar, assar, beber, comer. Com isso eu não brinco, eu levo a sério. O povo do trabalho gosta de sair em panelinhas para almoçar por aí e se tu não for um dia na dita panelinha você é um renegado. Credo, cruzes, deus me dibre, eu abomino essas panelinhas. Tenho esse jeito de pensar que vou pro trabalho pra trabalhar. Nada contra ter amiguinhos, tem muita gente querida no trabalho pra mim, mas mano, depender socialmente do serviço é triste. Gente carente do cacete, eu, hein.
Daí eu não saio com eles, eu levo comida e como no refeitório porque amo cozinhar e como muito. Restaurante sai caro pra mi, só vou quando é rodízio e posso comer até o cozinheiro chorar e arrancar os cabelos. Sou magro de ruim, de metabolismo atômico mesmo. Eu poderia comer um sapato e convertê-lo em energia, não duvide.
As panelinhas saem e eu saio pra sentar num cantinho que eu tomei para mim na esquina descendo a rua onde bate Sol e posso ler em paz sem ninguém me encher o saco. Passeio pelo bairro, canto com os passarinhos, faço carinho nos gatos.
Em mais ou menos meia hora os advogados aquela racinha maldita já acabaram de almoçar no refeitório e de conversar uma infinidade de assuntos excitantes que me fazem querer enfiar uma faca no meu rabo e daí eu vou comer meu almoço.
Gosto que nessa hora tá tudo vazio e posso comer e ler quietinho. Porque eu continuo lendo enquanto como como bom rato de biblioteca que eu sou. E um adendo: eu quase sempre como com colher. Acho que é porque cabe mais nela e sou ansioso.
Daí sento ali na paz do senhor com meu yakissobão que fiz no fds pro povo lá em casa e minha chefe senta na outra mesa pra comer a marmita mega fit dela (no judgements, magina). Eu sei que ambos podemos ficar em silêncio, eu lendo e ela comendo, ninguém precisa falar com ninguém.
Mas eu sinto uma puxada de assunto indo da parte dela. Sabe, dá pra sentir essas coisas. Você apenas SABE quando alguém vai falar bosta. Elas aparecem e eletrificam o ar com uma tremenda falta de assunto que você sabe que não precisa ser iniciada, mas que a outra pessoa insiste em puxar.
“Cê tem curso superior?”, ela me lança da outra mesa.
Eu estava claramente lendo concentrado e levanto os olhos piscando desorientado. Inspiro e expiro silenciosamente. Putaquepariu, perguntinha de merda. Detesto puxação de assunto, pior só se o cara fala "ai, ai" e fala do tempo que daí já morro do cu instantaneamente. Detalhe que ela já me perguntou isso umas três vezes em outras ocasiões. Adoro minha chefe, mas mano, desnecessário, ninguém gosta desse assunto.
“Não, não completei, mas quero fazer astronomia”, o bonito aqui responde ainda por cima.
“hum”, ela acena com a cabeça mastigando e acrescenta: “é bom, você é jovem, é mais fácil agora, faz sim”.
Ai, caralho, mereço.
Lição do dia: tem alguém almoçando, deixe o nego almoçar, vlws, flws.

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