Morar sozinho
Eu me considero um adulto formado com diploma de adulteza
faltando só uma especialização ou outra tipo matar barata (dá-lhe SBP quando uma aparece, deixo o cômodo em que ela estiver radioativo de inseticida) e usar
panela de pressão. Desculpa, não sou de ferro não.
Tô morando sozinho faz quase dois anos e tô vivo e muito bem,
olha só. Sem sinais de subnutrição ou qualquer sintoma relacionado ao consumo
intenso de miojo. Uma olheira ou outra porque na vida adulta você não dorme.
Sabe todas aquelas horas que os bebês dormem? Cara, se tu não aproveitou aquela
época pra dormir pra um caralho, sinto muito, porque agora não rola mais. Oito
horas de sono? Pfffff, tolinho.
Eu cozinho muito (não é a toa que tem uns três blogs de
receitas aí do lado) e me viro bem. Mas é porque amo cozinhar, tenho essa
vantagem evolutiva. Gosto de cozinhar bebendo cerveja ou vinho. Às vezes nem cozinho e só bebo mesmo porque é um país livre. E ainda compro e como frutas, acredita? Olha aí, evitando o escorbuto com sucesso. Trago os migos e cozinho pra eles. Sempre tem bolacha e chocolate pra eles. A cerveja eles trazem. A maior parte dos
jovens adultos só come miojo e pão com ovo. Acho. Não sei direito, quase nenhum
amigo meu mora sozinho. Deve ter um documentário da vida desses xovens em algum
lugar na internet, procure aí.
Tô muito adulto. Eu reclamo das responsabilidades, mas eu
abraço elas. Mano, que delícia ter conta de água e luz no meu nome, tudo que eu
fizer é porque quis e pronto. Tá certo, boleto dá medo. Ultimamente tô bem
quietinho num cantinho pra ver se os boletos não me veem aqui e passam reto por
mim. Mas mano, é bom demais abrir a torneira e pensar “eu pago essa porra” e
logo depois fechar apressado ela porque afinal é só você que paga essa porra.
Fico apagando as luzes não usadas o que, eu notei, numa casa cheia de cômodos
dá um trabalho pra uma pessoa distraída. Volto tarde e vejo a luz da escada
acesa e ficou putinho comigo mesmo. Os gatos não apagam, já tentei ensinar. O
que eles aprendem, aprenderam sozinho. Pólvora sabe dar high five e Galeandra
sabe abrir a porta do armário. Olha que primor de filhas da puta. O Enoque não
aprendeu a fazer nada, ele é burro, gordo e frouxo mesmo, bonito que só ele. Fazer o que, nem todo mundo nasceu pra pensar.
Mas tirando os boletos, morar sozinho é só delícia. Ando
pelado pela casa (só evito o térreo nessas horas porque ainda tá sem cortina e as janelas são
enormes, oi, vizinhos!), faço brigadeiro dançando e cantando às três da
madrugada e ninguém me pede silêncio ou pergunta sobre meu estado psicológico
de óbvio descontrole mental, cago de porta aberta, deito onde eu quiser
quando bate um estado reflexivo da alma questionando a efemeridade da vida e
tudo e tals, canto bem alto o que eu quiser, posso sentar e chorar em
qualquer lugar, não arrumo a cama e se eu fico um dia sem tomar banho ninguém
jamais saberá.
É ótimo. A paz que tu sente quando mora sozinho é
incomparável. Nossa, maravilhosa. Porque você esta sozinho e se não fizer barulho dentro da casa ninguém faz. Se alguém fizer chame a polícia. Só sentar num canto e ler. Olhar a vista e
pensar. Não ter hora pra voltar ou satisfação pra dar. Wow. Fantástico.
Nunca liguei pra solidão, eu aproveito cada minuto dela. E
em casa quase sempre tem um gato por perto ou que passa pra ver se eu ainda
estou vivo (eles realmente fazem isso. Chegam, te cheiram, veem que você ainda
existe e respira e ficam contentes. Mó barato). É bom andar pela casa e saber
que só tem você nela. Dá uma sensação de controle e que o caos do universo não é tanto assim. Ruim seria quando só deveria ter você e tem alguém fazendo xixi no
banheiro. Opa, isso não seria bacana.
Tô de boa com a limpeza da casa. Até agora consegui pelo menos varrer a casa e passar aspirador todo sábado. E o que eu não limpo eu digo que limpei. Foda-se.
Os vizinhos já devem ter notado que sou uma louca dos gatos meio reclusa. Não paro pra dar bom dia a não ser que quase trombe com alguém ou a não ser que uma velha determinada me dê uma rasteira com uma bengala, me segure e me olhe nos olhos gritando BOM DIA. Evito contato visual pra não ter que dar bom dia. Bom dia cansa minha beleza, bom dia é o cacete. Falar com gente? credo, deus me livre. E acho que a mulher que mora mais pra frente me odeia porque quando o caminhão da mudança tava passando ele destruiu um pedaço da árvore que fica na frente da casa dela que tava impedindo o caminho. C'est la vie, mon ami. Acho que se alguém inesperado bater na minha porta eu jogo um gato e me escondo embaixo da cama.
Talvez eu fale um bocado sozinho, admito. Mas tento falar o máximo possível com os gatos pra, bem, parecer menos pirado, né. Só a louca dos gatos mesmo. Talvez eu fale com minhas plantas também. Talvez, só talvez eu fale com um ou outro eletrodoméstico às vezes. Ou com o computador. Ou, sei lá, com a porta. Mas tenho certeza de que são todos hábitos saudáveis e extremamente reflexivos.
Outro dia falei pra uma miga que tava comprando uma porta e que ia passar massa corrida num buraco e ela falou que eu tava soando muito adulto. Pois é.
Não tenho TV, mas toco música boa parte do tempo. A casa esta linda, ficando ajeitada e cheia de música.
Se vier, traga cerveja.
Tô de boa com a limpeza da casa. Até agora consegui pelo menos varrer a casa e passar aspirador todo sábado. E o que eu não limpo eu digo que limpei. Foda-se.
Os vizinhos já devem ter notado que sou uma louca dos gatos meio reclusa. Não paro pra dar bom dia a não ser que quase trombe com alguém ou a não ser que uma velha determinada me dê uma rasteira com uma bengala, me segure e me olhe nos olhos gritando BOM DIA. Evito contato visual pra não ter que dar bom dia. Bom dia cansa minha beleza, bom dia é o cacete. Falar com gente? credo, deus me livre. E acho que a mulher que mora mais pra frente me odeia porque quando o caminhão da mudança tava passando ele destruiu um pedaço da árvore que fica na frente da casa dela que tava impedindo o caminho. C'est la vie, mon ami. Acho que se alguém inesperado bater na minha porta eu jogo um gato e me escondo embaixo da cama.
Talvez eu fale um bocado sozinho, admito. Mas tento falar o máximo possível com os gatos pra, bem, parecer menos pirado, né. Só a louca dos gatos mesmo. Talvez eu fale com minhas plantas também. Talvez, só talvez eu fale com um ou outro eletrodoméstico às vezes. Ou com o computador. Ou, sei lá, com a porta. Mas tenho certeza de que são todos hábitos saudáveis e extremamente reflexivos.
Outro dia falei pra uma miga que tava comprando uma porta e que ia passar massa corrida num buraco e ela falou que eu tava soando muito adulto. Pois é.
Não tenho TV, mas toco música boa parte do tempo. A casa esta linda, ficando ajeitada e cheia de música.
Se vier, traga cerveja.

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